Cidadão Jonas, Mariana e Paris



Por que será que um movimento de cidadãos mais emocionados e ativos pelos outros é tremendamente mais efetivo quando rompe uma barragem em Mariana e terroristas atacam Paris?


A primeira resposta que me vem à mente é porque os fatos são diferenciados e são comentados por todos os meios de comunicação ininterruptamente por uma semana, despertando assim mais atenção. Ninguém está acostumado com esse tipo de notícia, então parece que tristes acontecimentos fora da zona de conforto engajam mais pessoas.


Então vejamos o lado bom disso, que maravilhoso ver mais gente engajada. Mas a realidade é que sabemos que existem inúmeras catástrofes acontecendo diariamente ao nosso redor e essa comoção com cidadãos ativos precisa acontecer continuamente. Autores como Peter Singer e Jeffrey Sachs abordam claramente como pequenas doações individuais poderiam resolver problemas sociais gigantescos. Isso não quer dizer que só doações são a solução, mas é uma boa forma de ver como uma contribuição ativa de cada um pode acabar com catástrofes diárias como a subnutrição, doenças evitáveis, falta de água e educação para todos.


Em São Paulo mesmo, o Jonas (referência fictícia a um cidadão) vê gente dormindo na rua, pedindo esmola e passa por favelas toda semana. Como isso se tornou normal com o tempo, parece que não exige nenhuma reação. Mas é exatamente esse tipo de senso comum que precisamos mudar.


Em Bento Gonçalves, mais de 600 pessoas ficaram desabrigadas e mais de 20 desaparecidas (fonte: BBC). Em Paris, quase 130 pessoas foram assassinadas (fonte: BBC).


Para pensarmos em fatos tangíveis parte do nosso cotidiano busquei a maior causa de morte no Brasil, desconsiderando as por problemas de saúde. Em média 137 pessoas perderam sua vida por dia no Brasil em razão de homicídios por armas de fogo, totalizando 50 mil em 2013 (fonte: Exame). O que tristemente significa que mais gente morre no Brasil diariamente do que nesse episódio em Paris.


Em sua autodefesa, o Jonas já pode preferir argumentar que contra a violência ele não pode fazer nada, a não ser se proteger, afinal é o trabalho da polícia que está descapacitada e blábláblá. Mas calma lá, nossas atitudes do dia-a-dia podem ser parte direta da violência, não? Somos capazes de descomplicar o entendimento desse problema social, tentemos:

  1. O básico é educação, claro, será o Jonas alguma vez teve o interesse em saber se os filhos da faxineira que trabalha na sua casa ou dos empregados da sua empresa vão à escola regularmente?

  2. Será que o Jonas pode ao menos convencer a sua família e amigos a não ver a novela que mostra brigas, crimes e armas o tempo todo? Os filmes também exercem essa irresponsabilidade, já que neles a morte é totalmente comum e banalizada. Eu mesmo vi, na minha juventude, o Bruce Willis e o Denzel Washington, somados, matarem umas mil pessoas e saírem fazendo piada com cara de herói. Aos meus quinze anos isso já era normal…

  3. Será que o Jonas pode não permitir que suas crianças joguem vídeo games onde o objetivo é ser o maior matador da guerra para zerar o jogo e ficar com aquela sensação de campeão?

  4. Quantos Jonas não curtem consumir drogas ilícitas e se tornam diretamente responsáveis pelo crescente poder do crime organizado ao comprar essas drogas? Fora o álcool, cujo consumo descontrolado em todas as idades mata em acidentes de trânsito e também gera violência.

  5. Também tem o Jonas que suborna um policial pra “perdoar” uma multa e economizar uns reais. Atos de deseducação, como esse, corrompem a justiça e estimulam a prática da ilegalidade.

  6. Dá pra sentir quantos Jonas do nosso cotidiano conhecemos e quão parte ativa eles podem ser da violência.

Precisamos nos precaver e evitar que o Jonas dê a desculpa de que só ele tomando essas atitudes não resolveria nada. Todos nós somos responsáveis por nossos atos e podemos servir de exemplo pros outros. Imaginemos a utopia de novelas e filmes sem violência, jogos de vídeo games onde os jogadores não matam e policiais não são subornáveis. Dá pra sentir outro conceito de violência no senso comum?


Vale lembrar que o Jonas é um trabalhador também, então ele pode ser o ator da novela, o produtor do filme, o programador do vídeo game, o agricultor ilícito e assim por diante. Essa conscientização da função social no trabalho tem um nível de complexidade mais profundo, porque o ganha pão e a insegurança estão em jogo. Ai ele já pensa que precisa de emprego, que estamos em crise e que tem que fazer o que o chefe manda. O medo do futuro o torna cego para questionar o que está certo ou errado e tristemente o faz corresponsável por muitos problemas. Especialmente numa era em que, segundo Zygmunt Bauman, existe uma “suspeita e competição mútua” entre as pessoas no mercado de trabalho. Precisamos acreditar numa transição ética e gradativa.


É, o cidadão Jonas pode ser uma máquina de desculpas muito efetiva pra não tomar atitude. Por isso não podemos esperar que acontecimentos homéricos aconteçam para conquistar a consciência e o engajamento de mais cidadãos. Cada um precisa repensar a responsabilidade da sua função social, como a prática no dia-a-dia e juntos nos mobilizarmos para a mudança. Ainda vai dar certo.


Jonas, te amo, mas vamos trabalhar.


Felipe Brescancini Think Twice Brasil