Experiência #14 - Burundi



No meu último aniversário ganhei um dos melhores presentes da minha vida. Amei desde que o recebi, por ter um valor muito especial para o meu conceito de valor, mas eu não tinha ideia que ele guardava uma surpresa emocionante pra depois. Minha irmã, a Gabriela, ao invés de dar uma daquelas lembranças que o presenteado tem o privilégio de não precisar, (gratidão) como roupas e eletrônicos, ela apadrinhou em meu nome uma criança que não teve as mesmas oportunidades que eu tive. Acho que com essa breve explicação dá pra sentir o enorme valor para o bem que uma compra pode ter.


Ela fez isso através da ActionAid Brasil, uma organização global que trabalha por um mundo sem pobreza e injustiça em 45 países desde 1972. Quem são eles segundo eles mesmos : “Trabalhamos em parceria com as comunidades e organizações locais para garantir o acesso das pessoas em situação de pobreza aos direitos de alimentação, educação, infraestrutura urbana, participação cidadã e equidade entre homens e mulheres, raças e etnias”.


Quando a Ga fez o apadrinhamento, ela não escolheu o país, apenas onde a urgência era maior. Para essa causa e momento foi escolhida a Evangeline Igiraneza, que tem cinco anos e mora no vilarejo de Nyabikere, em Karusi, no nordeste do Burundi. Essa foi a surpresa, porque esse país estava na rota inicial do Think Twice Brasil e foi para a lista dos imperdíveis assim que soubemos, já que descobrimos que poderíamos visitá-la pessoalmente. Confesso que no início eu não estava totalmente seguro que seria possível conhecê-la por um preconceito em relação a algumas organizações gigantes, por ter tentado entrar em contato antes sem resposta alguma.

Para a nossa alegria, a ActionAid Brasil me respondeu imediatamente após o meu contato, confirmando que seria possível a visita. O Burundi é um dos dez países mais pobres do mundo, segundo o ranking do World Bank medido por PIB per capita. Mesmo não concordando muito com o critério de ordem, pudemos vivenciar perambulando pelo país que pode ser verdade, por ver a pobreza espalhada por todos os cantos, assim como vimos em Angola. Por ter menos riquezas naturais e o turismo pouco desenvolvido conseguir informações sobre como chegar por terra a capital, Bujumbura, e onde ficar foi um belo desafio, mas conseguimos superá-lo muito bem empolgados em encontrar a Evangeline! Modéstia à parte.



Continuando as boas impressões, o amigo Josias Ukuriniyesu, gerente de apadrinhamento da ActionAid Burundi, nos acolheu com muito carinho e foi um anfitrião excepcional. Além de toda a coordenação da visita, ele também nos levou para conhecer outros projetos deles no país e nos guiou pela cidade. Foram dois dias intensos de conversas por muitas estradas, conhecendo pessoas e muita coisa boa sendo feita.


O trabalho deles vai muito além de assistencialismo e dar dinheiro, seu foco é no desenvolvimento, capacitação e empoderamento de pessoas para que a transformação esteja na mão delas. Nas associações de agricultoras que conhecemos, por exemplo, ao invés de dar sementes para elas plantarem, eles entram com o dinheiro e monitoram para que elas tenham o poder de decidir onde comprar, quanto pagar e se colocarem assim na sua comunidade. Nunca tinha pensado dessa forma e foi muito bom aprender. Outra prova disso são os cursos que fazem continuamente para educar as pessoas de acordo com as oportunidades que encaram.



Vimos um efeito incrível desse trabalho ao conhecer a Monique da associação Tujehamwe (que significa “estejam juntos”), que planta feijão e soja para consumo e para venda. Muito além da preocupação em lucrar mais, me impactou bastante saber que o objetivo maior da associação é garantir que cada família seja capaz de cuidar da sua horta e tenha disciplina financeira para ser autossustentável. – Imagina se existisse esse conceito no capitalismo, que genial…. – Uma evidência dessa conscientização é que através das reuniões comunitárias eles identificam as famílias que estão passando por reais dificuldades e, com parte do lucro, ajudam a comprar materiais escolares para crianças e cartão para medicamentos, por exemplo. Maravilhoso!!! A educação é uma prova de quando propósitos transformam realidades!



Mas a ActionAid não para ai, para suprir uma necessidade que o governo não consegue prover, eles construíram uma escola primária novinha. Demoramos para chegar nela por caminhos de terra intermináveis onde parecia ser afastado demais para ter tantas crianças, mas para o nosso deslumbre quando chegamos tinha apenas umas 250 crianças alvoroçadas com os branquelos na área. Foi a maior multidão que tivemos contato e foi muitíssimo divertido. O filme mostra.

Conversamos com o diretor e nos alegrou entender que depois de erguida é o governo que remunera os funcionários, assim não dependem de doações para continuar. Ainda mais importante é que conseguiram uma concessão de terra do governo para construir ali e muito pesquisaram para encontrar o local intermediário no vilarejo para que todas as crianças tivessem que caminhar uma distância humana para chegar às aulas.


Foi o meu primeiro contato direto com beneficiários de projetos liderados por instituições de grande porte e a impressão inicial que se manteve até o final foi excelente e nutriu minha esperança. Parabéns ActionAid pela sua missão e realização que geram para a vida de muitas pessoas. Gratidão!



Não comecei contando sobre o encontro com a Evangeline porque a emoção tomaria conta de mim! Meio clichê, mas é verdade! Foi o momento em que mais vezes tive que conter as lágrimas nessa viagem. Isso porque me esforço para não chorar nessas situações por respeito às pessoas, uma vez que podem associar essa reação a sentimentos como dó e inferioridade, que não são positivos. Bom, cada um com as suas teorias. Essa é uma minha!


Saímos de Bujumbura cedinho e depois de quatro horas de carro e vinte minutos de caminhada por trilhas chegamos à casa da família Igiraneza. Uma casa simples com plantações em volta, um porco, cabras e galinhas. A casa tem dois cômodos, uma espécie de sala onde as cabras dormem de noite por segurança e um quarto onde dormem a Evangeline, duas irmãs e os pais.



Estava ansioso para sentir na pele o resultado de um presente do bem. Ao chegarmos com as comidas que compramos para a família, é tradição levar algo quando se faz uma visita por lá, a mãe dela nos abraçou forte e começou a falar sem parar em kirundi, o idioma local. Eu presumia que algo bom, mas então o Josias começou a nos traduzir. Foram muitas palavras de agradecimento e benção para nós. – Primeiro choro contido… A pequena Evangeline e sua irmã não perderam tempo para um abraço carinhoso e agradecimentos. Muito bonito! Ela ainda estava acanhada com a nossa chegada, mas as nossas brincadeiras foram soltando sua timidez. Claro que não nos esquecemos de levar doces e já a notamos maravilhada com um pirulito. – Segundo choro contido…



Notando a movimentação anormal, a vizinhança logo se aglomerou em volta da casa e um momento muito especial de generosidade aconteceu. O pai dela pegou um pacote de biscoitos que tínhamos levado e distribuiu um a um para TODOS que estavam ali. Imagina nós, ali pensando em tantas dificuldades e minimalismos assistindo um gesto de tamanha generosidade com tanta espontaneidade. – Terceiro choro contido…


A Gabi e eu não resistimos em atiçar a criançada com brincadeiras de novo e a alegria foi tomando outra proporção. Ela começou a gargalhar sem parar que até o Josias ficou chocado . Nunca saberei se é o jeito da Evangeline ou alguma força maior que estava ali para nos transmitir um sentimento de realização indescritível. Mas por dez minutos havia uma energia de êxtase naquele pontinho do mundo que era um claro sinal do universo que aquilo tinha sentido. – Quarto choro contido…



Vivendo tudo aquilo, não conseguimos resistir a um agradecimento a mais e deixamos uma contribuição para conseguirem duas cabras para uma renda adicional para a família. Eu sentia que eu precisava fazer isso por retribuição a aquele momento, nada mais.

E assim foi uma hora intensa e uma despedida alegre, cientes de que uma decisão de compra diferente pode gerar um efeito em cadeia significativamente maior que mais um bem material para quem tem todos.


Não quis me estender em criticar nosso consumismo doentio, porque essa experiência deixou muito mais amor que qualquer outro sentimento, mas quem sabe esse relato possa verdadeiramente impactar pessoas a refletir sobre o conceito de valor, de presente, do material, especialmente no natal que está ai. Sempre que me perguntam sobre presentes tenho o prazer de poder responder que não preciso de nada, pois já tenho tudo e tem tantas pessoas por ai que aquela pequena quantia que pode ser o famoso “dinheiro de pinga” pra você pode ser um “dinheiro de mais vida” pra elas.


Bom, tudo é relativo obviamente, mas quem sabe cada um pode criar uma relatividade consciente para deixar de comprar sem parar, sem pensar e sem querer, para ajudar.

Se não sabe como, nosso último post conta do movimento #InspireUmAbraço em conjunto com a ActionAid Brasil para apadrinhar uma criança nesse natal. Mais detalhes clique aqui, por gentileza!


Felipe.