Reflexão #6 - O que é relativo pra você?


Uganda começou impactante, porque depois de boas doze horas de ônibus, cansaço físico e mental nos deparamos com um conflito de expectativas. Onde passaríamos a noite estava precário e diferente do que acordamos. Para não contribuir ao anseio de apenas se lavar e comer, tivemos que tomar um banho de água gelada em razão de um vazamento. Lembre-se que água fria já é algo costumeiro pra nós, mas essa estava quase gelo líquido…


Com as realidades que temos conhecido parece até ridículo eu pensar em reclamar disso com tamanho privilégio e mordomias que temos. Mas exatamente nesses contextos mora uma reflexão que tenho feito muitas vezes.


Quando chegamos ao mundo (valeu de novo mãe!) não temos referência nenhuma de nada, nem de bom ou ruim, bonito ou feio, cheiroso ou malcheiroso. Claro que esses conceitos são criados por todos nós, a gloriosa raça humana na sociedade moderna. Assim, desde criança os fatores externos são responsáveis por criar a maior parte dessa consciência na nossa mente, como somos criados, o meio onde vivemos, ao que temos acesso, o que ouvimos, lemos e vemos. Principalmente durante os primeiros anos. Embora acredite que existe uma essência interna que guia nossos gostos e personalidade, a influência desses fatores é gigantescamente decisiva.


Meu ponto aqui é que com essa relatividade criada condicionamos o que significa conforto pra nós, o que parece seguro, o que é minimamente aceitável e o que é justo. Vim com o autocompromisso de me desapegar ao máximo de tudo nessa viagem, mas esses meus padrões singulares tentam frequentemente ditar a minha harmonia. Digo singular porque em sua completude eles são absolutamente pessoais e intransferíveis…


Mesmo me esforçando nesses momentos de trajeto de um país para outro, os sentimentos de incerteza, insegurança, inesperado e “saco cheio às imbecilidades” afloram em conjunto. Obviamente todos eles criam uma expectativa mínima para cada detalhe e tudo isso associado à exaustão promovem a sensibilidade… Acho que estou viajando demais, mas espero conseguir me explicar…


Graças a muita meditação acredito que melhorei minha paciência e compaixão para lidar com decepções, mas em alguns momentos as emoções acumuladas me tornam menos tolerante e é difícil controlar a frustração. O lado positivo é que a cada experiência aprendo a dar mais valor para coisas que antes não dava a devida importância. Como a regalia de poder sempre chegar numa nova cidade, ter uma cama, tomar um banho e sentar pra comer numa mesa. Exalamos gratidão e alívio nessas horas.


O que quero compartilhar é que tenho aprendido nessa jornada que devemos ter muito cuidado com o que é verdadeiramente necessário para nós e como associamos a felicidade a essa necessidade.


Nada mais justo que relatar sobre mim para exemplificar. Sempre vivi numa casa com tudo limpo, parede branca, quarto espaçoso com uma cama confortável só pra mim, sala com televisão, banheiro com vaso sanitário com descarga e chuveiro com porta de vidro, cozinha com água na torneira e eletrodomésticos e lavanderia com máquina de lavar e até varal. Sou muito grato por todas essas oportunidades!

Banheiro coletivo na favela de Kibera em Nairóbi, Quênia.


Nesse ambiente diariamente por três décadas, todos esses detalhes passam a reinar o meu conceito de elementos básicos para se viver e sem eles a vida até parece vazia, triste. – Calma lá, que não chegarei a dizer que bom é viver pelado na selva comendo minhoca e tomando banho no rio… – Querendo ou não, todo esse estilo de vida foi criado para o conforto do homem, para vivermos mais em harmonia com tudo mais fácil e prático. Buscar essa evolução constante é uma das nossas maiores qualidades, sem dúvida.


Porém, na minha humilde opinião, o problema está nos passos seguintes. Como achar que precisamos sempre trocar o que temos por algo “novo-última geração-importado-caro-que todos têm”. E no querer passar do nível conforto para a fase “luxo que preciso mostrar pra geral o que eu tenho”…


Essas duas novas aspirações, nos colocaram num ciclo vicioso ridículo de acreditar que precisamos sempre consumir de novo para estar vivendo o melhor possível, em linha com os avanços e com o que os outros acham bom. Ou seja, nosso critério de bom e do que é realmente importante para a nossa vida se perdeu completamente.


Cheguei nisso para contar o que temos visto por aqui, uma relatividade de valores totalmente estranha para esse, eu, que pôde viver sempre com tudo.


Em um dos projetos sociais que conhecemos em Uganda (contaremos no próximo post), o fundador Augustine, um senhor extremamente gentil, humilde e dedicado a sua comunidade nos convidou para almoçar. Nosso breve contato por email contando do Think Twice Brasil e propondo uma visita para conhecê-los, foi suficiente para que ele gentilmente preparasse um almoço. Bondade.


Chegando a sua casa, bem recebidos, eu me peguei pensando sobre o local com estranheza… Uma impressão totalmente pessoal. Talvez por pensar que se ele investe seu tempo e recursos no projeto para os outros, ele tinha uma condição muito boa para viver. Os quartos estavam bem cuidados, mas com objetos espalhados pelo chão, uma árvore de natal tombada na sala e uma cozinha aberta do lado de fora com tudo no chão, prateleiras velhas e nada parecia limpo – segundo o meu critério de limpeza claro.

Casa de barro num vilarejo do Quênia.


Na minha seguinte fase de pensamento, me peguei pensando que aquilo tudo para ele é maravilhoso, é mais que bom para se viver. Ele ainda dá abrigo para quatro meninos da comunidade, já que seus filhos são crescidos e moram em outros vilarejos para trabalhar.


Depois que saímos de lá esse pensamento não saia da minha cabeça o resto do dia, por deixar cada vez mais claro que o conceito de conforto é absolutamente relativo. Ele é extremamente feliz ali e vive em plena generosidade. Aprendi que devemos, de uma vez por todas, conseguir nos desassociarmos a padrões que a sociedade acabou nos inserindo, dominando a nossa mente, e pararmos para se conhecer de novo e remodelar nossas próprias referências. Cada um no seu tempo.


Temos visto isso ao longo de toda a viagem. Conhecemos muitos agentes de transformação que se dedicam integralmente para os outros e são intensamente realizados vivendo com simplicidade. Como a Rose e o Martin que conhecemos no Quênia (contaremos mais nos próximos posts). Pessoas inspiradoras, de princípios, carinhosos, que riem de tudo e nos tratam como família. Para mim, vindo de um padrão bastante diferente, a forma como vivem faz me sentir até inferior, por ainda ter profundamente enraizado na minha mente que preciso de muito mais para viver com o básico.

Quarto que serve como uma casa a jovens em Kampala, Uganda.


Muito louco, mas é a relatividade que tenho e é um desafio transformá-la. Ao que damos valor e sentimos que realmente precisamos somente nós sabemos, mas é fundamental encontrarmos os meios para evoluirmos. Isso é o que eu acredito.


Se você está confortável com o seu ideal de conforto e necessidades básicas, fico feliz por você. Eu confesso que ainda não estou conformado com o meu, em razão do simples fato que ainda acho que preciso do excesso para estar bem, mas quero conseguir sentir que preciso de menos. Isso tem uma implicância no coletivo claro, já que hoje por um fator matemático nós, os poucos, temos muito e exageramos, e os outros, os muitos, têm pouco e sofrem.


O que é ainda mais provocante, sem entrar em dados estatísticos, é que os que têm pouco parecem estar muito mais felizes e em paz que os que têm muito. Estranho? Precisamos questionar diversos conceitos e remodelá-los. Só estou tentando.


Felipe.