Experiência #1 - Soweto, África do Sul

Agora sim, a ideia tão pensada e planejada entrou em prática. Como em tudo, o começo tem aquela sensação estranha de “valendoooo”. Uma mistura de empolgação com titubeios de por onde ir. A impressão que fica por hora está diretamente relacionada com a expectativa, então foi ótimo deixar clara para nós mesmos que ainda pegaremos nosso ritmo de viagem, então relaxemos. Para deixá-lo à vontade o princípio tem que envolver as trapalhices: Em quatro dias de viagem já empurrei dois carros, um por gasolina e outro por pane inesperada. A Gabi, claro, não perdoou a oportunidade de registrar ambos os casos – isso só estará num making off futuro. Outro fato bastante relevante é que o garoto mais espoleta da turma que conversávamos (sempre tem um), logo após urinar no chão venho brincar de luta comigo e tomei uma dedada no dente. Foi bem engraçado internamente…


Como suspeitávamos, encontrar agentes de mudança caminhando por uma cidade grande não seria exatamente fácil, por isso, nada mais prático que conseguir alguém que conhecesse áreas mais desafiadoras e ir até lá para conversar no famoso “tête-à-tête”. Assim o fizemos, fomos com o simpático e risonho Ray (not Charles), conhecido do albergue, até a área menos desenvolvida de Soweto e conversamos com moradores locais, que não promovem mudanças para todos, mas nos inspiraram pela generosidade e alegria que vivem, mesmo em uma situação tão desfavorável.


Uma breve explicação histórica de Soweto (não o grupo de pagode…). Surgiu no final do século XIX com a migração de negros que vieram para trabalhar em minas após a descoberta do ouro em Johanesburgo. Tomou força em 1948 quando a segregação racial, por meio do Apartheid, foi oficialmente estabelecida na África do Sul e o então governo branco (óbvio) obrigou os negros a viverem somente nas redondezas de Johanesburgo. O nome vem de SOuth WEstern TOwnship e foi assim batizada em 1963. A região também cresceu com um hospital militar inglês que acabou tornando-se o maior hospital do continente até hoje, ainda em funcionamento. Soweto ficou muito conhecida por violentos protestos nas décadas de 1970 a 1980 e por seus moradores Nelson Mandela e Desmond Tutu, dois ganhadores do prêmio Nobel da Paz. Desenvolveu-se ao longo dos anos e em 1994, com Mandela no poder, foi revitalizada com a construção de muitas casas pelo governo, maior distribuição de energia e saneamento básico em grande parte. Hoje é uma pequena cidade, tem uma população de aproximadamente 1.3 milhão dos quais 98.5% são negros, tem desde casas grandes com portão e garagem até barracos sem banheiro e energia elétrica, como em Elias Motsaeledi, o bairro aonde fomos. Para melhorar as condições básicas de vida, ao menos as ruas têm bicas com água potável e pontos com banheiro comunitário com saneamento.


Lá conhecemos Charles e Lennox, dois pais de família muito humildes e simpáticos. O primeiro é barbeiro da região, atende numa cabana de lona branca, cobra dois dólares para cortar o cabelo e um dólar para raspar a cabeça, o que é bem comum. – A Gabi não aceitou raspar, mesmo sendo promoção para estrangeiro… – O segundo, Lennox, está desempregado e seu último emprego foi em um supermercado. Eles gentilmente nos convidaram para caminhar pelo seu bairro, conhecer suas casas, suas famílias e suas histórias.


Chegamos à casa de Lennox, feita de malhas de ferro com uma cozinha e um quarto, onde moram ele, a esposa e três filhos. Conversamos bastante com eles sobre a vida lá, como se sentem, o que falta e o que sonham. Ficou muito claro que apesar das adversidades que enfrentam todos os dias, são felizes e afirmaram isso verbalmente mais de uma vez. Sentem muita falta de uma casa decente, o que o governo diz estar providenciando para melhorar a vida ali em breve. Impressionou-nos que eles realmente acreditam nessas promessas, mesmo cientes de que só a cada cinco anos as coisas aparecem, em razão das eleições. Ridículo naturalmente. Não se lembram de terem recebido ajuda de organizações humanitárias diretamente. O que mais pedem é uma educação de qualidade para os filhos e ter dinheiro para criá-los e garantir que tenham uma vida melhor. Isso fica claro no vídeo abaixo, que mostra alguns dos momentos que vivemos nesse dia.





Uma prova da humildade desses homens notamos ao dizer que somos brasileiros. Nesse momento Lennox, um pouco tímido, nos perguntou se era verdade que quando ali era dia, lá no Brasil era noite e por que isso acontecia. Fiquei muito contente pela vontade dele querer aprender e expliquei brevemente a diferença de fuso horário e meus conhecimentos do sistema solar. E claro que me peguei pensando porque a bendita professora de geografia nunca me salientou que eu poderia precisar saber mais detalhes sobre isso, para em idade adulta explicar para um amigo ao caminhar pela África… Já uma prova de generosidade tivemos ao dar-lhes fitinhas (estilo Senhor do Bonfim) com a bandeira do Brasil, que trouxemos para distribuir como uma forma de agradecimento. Ao entregar-lhes, Charles gentilmente pegou dois terços brancos e nos presenteou de volta. Ficamos bastante emocionados ao lembrar que além de estar preparado para nos agradar, quis retribuir uma gentileza na mesma hora, o que derrubou qualquer barreira social que pudesse existir entre nós.


Continuando, além de nos chamar muito atenção às diferenças grosseiras entre os bairros de Soweto, também impressionou que ao menos existe água potável livre, pois é bastante comum tomar água da torneira em Johanesburgo, e pontos com banheiros mais humanizados. Isso nos fez pensar muito que somente um negro no poder foi capaz de trazer a mudança, depois de o racismo secular ter dominado a consciência ignorante dos que sempre acreditaram ser uma raça superior apenas pela cor da pele. Digo isso, porque inúmeras vezes escutamos citarem “desde 1994” como um ano de renovação, pois foi quando finalmente a Raça Negra (de novo, não o de pagode) retomou o poder com Mandela.




Claro que foi bastante tardio, ao recordar que o sistema político de maior “sucesso” na terra, a democracia, preza pela vontade da maioria e até hoje mais de 70% dos Sul-africanos são negros. Andando pelas ruas, se vê brancos e negros em todas as classes sociais, porém há bairros onde éramos os ÚNICOS brancos andando e em outras áreas residenciais é mais comum ver brancos moradores de casas bastante confortáveis e negros em profissões menos remuneradas. A segregação é um tema discutido abertamente há duas décadas, desde que os negros assumiram o poder político, permanecendo à frente dele até hoje. Uma curiosidade bem diferente da que vemos no Brasil, é que em reuniões entre o setor público e o privado, nota-se facilmente pela cor de pele dos interlocutores que no governo a imensa maioria é negra e nas empresas o domínio é branco. Regras já foram criadas para aumentar a participação de negros nas empresas (similar à lei de cotas para negros em universidades federais no Brasil), mas sentimos que ainda é uma obrigação e não um consenso da sociedade.


Bom, o que levamos por hora da primeira experiência Africana com a empatia no olhar, é que as consequências do egoísmo ignorante que dominou o século XX ainda são notáveis, mas sim, estão melhorando. A visível diferença de cor de alguma forma ajuda a unir as pessoas mais facilmente, o que, infelizmente, pode não ser tão simples em muitos países onde o preconceito ainda está na diferença de classe social, que por ser tão miscigenada acaba por tornando-a menos perceptível a olho nu, como no Brasil.


Felipe.