Experiência #30 - Mianmar ou Birmânia



O país se chama Mianmar e antes usava o nome de Birmânia… É uma república presidencialista com uma democracia estranha, pois o governo atual foi o responsável pelo golpe militar. Não é permitido entrar em algumas partes do país, por motivos desconhecidos. A equanimidade de sua maioria budista aparentemente não vale para as diferenças entre etnias, já que o país tem sérios problemas com violações de direitos humanos até hoje. O turismo é minúsculo e inexplicavelmente caro…


Acho que deu pra sentir um pouco do que aprendemos em Mianmar, mas o ponto mais importante é que o povo é muito amável e fomos bem tratados como estrangeiros, mesmo sendo poucos por lá…


A primeira curiosidade é que o nome foi alterado para Mianmar em razão do orgulho ferido, pois o anterior, Birmânia, foi dado pelos colonizadores britânicos. Como essa alteração foi feita pelo governo militar em 1989, quem não reconhece a sua legitimidade não aceita o novo nome. Por isso é comum ser tratado como “Mianmar (Birmânia)”, exatamente assim, com um dos nomes entre parênteses sempre. Curioso…



O país já passou por muitas guerras civis e golpes. Ainda existe um triste conflito entre etnias que é encoberto pelos militares no poder. Essa violência de opressão vai desde genocídios públicos de milhares de protestantes nos anos 80 a assassinatos de monges em 2007 (o que, segundo a religião é um ato gravíssimo), além de conflitos armados com rebeldes chineses em 2015. Parte dessas atrocidades está na mídia hoje em dia, como os milhares de muçulmanos Rohingya pedindo refúgio em outros países por serem uma etnia islâmica sem direito algum em Mianmar, considerada um grupo invasor vindo de Bangladesh.


A confusão não para por ai. Na tentativa militar de democratizar, eleições foram feitas em 1990 e depois em 2010, mas ambas foram oficialmente condenadas como fraudulentas pela ONU e muitos países. Ainda assim, por interesses, financeiros obviamente, países como os EUA estiverem em visitas oficiais em 2014. Mas espera aí, o governo em poder não é uma fraude? Alguém quer ganhar de alguém hein…



Existe a oposição por uma democracia mais real, porém ainda sem sucesso. Uma das principais líderes, Aung San Suu Kyi, ficou em prisão domiciliar por mais de uma década e foi ganhadora do prêmio Nobel da Paz em 1991. Outra figura política conhecida, o diplomata birmanês U Thant, foi secretário geral da ONU por dez anos até 1971. Eu não os conhecia, mas os menciono porque vale ler mais sobre eles.


Por ser um país mais fechado e menos modernizado não encontramos organizações sociais, mas tentamos nos aprofundar ao máximo na realidade deles. Para tanto cedemos a explorar os arredores de uma cidade com um guia muito simpático e agitado, o Sr. Oo Oo Myat Khaing. – Eu adoraria ser chamado de “Ô Ô”, prático, carinhoso e ainda dá pra puxar o refrão de alguma música… – Ele é budista e com seus mais de setenta anos pude aprender e refletir sobre o poder da informação.



Demos uma bela caminhada pelo distrito de Dala, do outro lado do rio da grande cidade de Yangun. Pela cidade se vê camelôs a qualquer hora, vendendo de tudo e por isso resolvemos conhecer onde eles moram. Como prevíamos, as condições eram muito precárias com lixões a céu aberto e muitos barracos sobre mangues. Ali vivem budistas, muçulmanos e católicos, todos juntos e pareceu tudo em paz.


O papo que puxo com quem conheço ao longo da viagem é sempre no caminho de entender como anda a vida dela e dos outros, o que funciona, o que não funciona, se as coisas têm melhorado e quais são os sonhos. Como nem sempre é possível construir uma amizade profunda em apenas uns dias para ir à intimidade dos fatos, tento filtrar as respostas de acordo com a sabedoria que a pessoa transmite.


Pelas experiências que tive até agora eu, pessoalmente, nunca sinto que posso ir a fundo a determinados assuntos com os guias. Ou porque já têm um texto pronto e não toleram um estrangeiro perguntando fora do roteiro ou porque realmente não tem consciência da realidade do seu país. No Brasil conheço muitos desconhecedores assim, mas que não trabalham com turismo…



Sabendo desse tema delicado da desarmonia entre etnias no país, quis entender a opinião dele. Para o meu desgosto (sorry Oo Oh) ele se mostrou bastante duro em acreditar no fato do povo Rohingya não ser de Mianmar e não ser problema deles ver seres humanos sem pátria. Inclusive salientou que o noticiário de hoje só fala besteira e se sente prejudicado pelo que a mídia internacional fala do caso.


Independentemente da verdade desse povo ser originalmente dali ou não, é fato que se construiu um estigma tão forte pelo governo contra eles, que mesmo sem saber a fundo, muitos apenas apoiam… Até me lembra os nossos conterrâneos pedindo o impeachment da Dilma sem ter a menor ideia de quais são os problemas e muito menos o que seria uma solução…



Nessas conversas com o nosso guia, fiquei refletindo sobre como a informação hoje é manipulada pelo interesse pessoal do emissor. Não sei se é drástico demais, mas infelizmente em razão da obsessão pelo ego sinto que até mesmo em discussões banais pessoas colocam toda sua força para vencer com o seu ponto e pronto, sem nem saber ao certo e nem se dar a chance de ouvir. O orgulho grita mais alto.


O grande problema disso, na minha opinião, é que uma legião de convictos começa a se unir e tomar força por uma ideologia que cega e inibe o livre pensamento. Isso por acreditar no que alguns falam sem nem saber porque. Se pensarmos nessa lógica, quantos genocídios doentios já aconteceram por meio de um discurso do mal acompanhado de uma fórmula psicológica mágica pra fazer milhares de cabeças acreditarem em algo só dizendo “é isso mesmo, porque é”.



O triste disso é que hoje todos precisamos ter muita cautela ao receber qualquer informação, ter certeza da sua imparcialidade e honestidade. Sabemos de várias revistas que têm uma afinidade política com apenas alguns partidos e as intermináveis formas que a propaganda tenta nos convencer que comprar aquilo é virar super-herói…


A verdade é que a maioria hoje sofre as consequências desse conflito de interesses sem nem saber porque e sem nem ter acesso à informação real. A internet mudou isso profundamente. Do lado positivo criou uma rede onde é possível saber informações que antes eram dificílimas de encontrar. Do lado negativo multiplicou o alcance dessas mensagens sem boa intenção e os defeitos da sociedade, como fofoca e futilidades.


Segundo fontes variadas sem um número conciso, hoje se estima que a internet chega a mais de 30% da população global… Será mesmo?


Nessa era da comunicação, o que me incomoda bastante é o que as pessoas escolhem procurar intencionalmente. É complicadíssimo tirar conclusões quando a educação ainda é tão desigual, mas uma situação na cidade central de Mandalay me marcou muito.


Como somos diferentes na cor de pele e fisionomia, às vezes pessoas pedem apenas para tirar foto conosco. Especialmente lá, onde era mais raro ver turistas. Tem uns que até forçam a amizade e nos mandam tirar o chapéu e óculos. – Talvez pra valorizar nossos cachos capilares, mas eu nego… – Lá, um casal da nossa idade nos pediu uma foto e ao sorrirem alegremente notamos que tinham poucos dentes e a boca muito preta.



Infelizmente essa é uma realidade que temos visto usualmente, mas em especial ali me chamou a atenção pelo fato deles estarem vestidos com roupas novas, usando acessórios emperiquitados e pelo rapaz ter tirado um celular moderno e novinho do bolso. Ainda na saída de onde estávamos passaram por nós dirigindo um carro.


O que quero dizer é que essa experiência foi uma prova cabal de que as mensagens e os desejos que estamos disseminando na sociedade são simplesmente pelo interesse de quem os cria e não pelo interesse de quem os acata. Indiferentemente da educação que esse casal teve acesso, eles conseguiram conquistar dinheiro para ter o poder de escolha e ainda assim priorizam essas posses antes da saúde. Cientes de que hoje eles têm acesso à internet e podem muito bem encontrar informações sobre saúde bucal.


O mais cruel é que eles ainda não perceberam isso e estão vivendo aparentemente felizes, (me contento por eles) mas sem nem saber que podem ter um sério problema de saúde evitável a qualquer momento, por exemplo. Fiquei tão impactado com tantos fatores externos e pensamentos que não tiramos uma foto com eles. Sério, me desculpe! Mas essa outra pode ilustrar um pouco o que quero dizer.



Ficou mais um aprendizado de diferenças, vilões e heróis. Uma lição de que precisamos estar conscientes do que fazemos, porque fazemos e o que nos motiva. Sei que parece até chato ter que pensar tanto pra viver, mas ao lado de todas nossas intermináveis qualidades temos os nossos defeitos. Eu sigo firme no partido que acredita que os vilões são o ego e o poder, enquanto os heróis são a consciência e a sabedoria. Vote em quem quiser!


Felipe.