Experiência #4 - Luanda, Angola


Antes de mais nada devemos contar que só conseguimos um visto de curta duração, por isso passamos rapidamente pelo país e não tivemos tempo suficiente para encontrar iniciativas do bem. Mas ainda assim foi uma experiência e tanto.


Mesmo com uma expectativa muita alta para conhecer a cultura da Angola, os angolanos nos surpreenderam. Positiva e negativamente. Esse contraste que tanto buscamos aprender sobre diferentes realidades pareceu praticamente incompreensível nesse país.


Angola teve sua independência de Portugal declarada em 1975. O que seria um governo de transição entre os três grupos de guerrilhas locais se tornou uma guerra civil durante vinte e sete anos. Sim, 27! Só terminou com a morte de um dos líderes em 2002, assumindo assim o poder o partido MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) com o presidente José Eduardo dos Santos. É uma República Presidencialista e o mesmo líder está no poder há trinta e cinco anos. Eleições existem, mas com um partido tão dominante e uma corrupção tão enraizada fica difícil confiar em sua legitimidade. Nossos irmãos venezuelanos sabem bem…

Existe uma idolatria doentia imposta ao presidente e seu partido tinha o apoio da União Soviética e de Cuba, em tempos de guerra. Mera semelhança socialista? Por outro lado não existe censura à imprensa e já há jornalistas valentes o suficiente para criticar abertamente a incapacidade do governo. Assim, sua possível democracia é bem questionável! Angola é o 25º país mais corrupto, segundo a lista da Transparency International. Ciente desse aspecto revoltante, é desesperador saber que Angola é um dos maiores produtores de petróleo e diamantes do mundo. Ou seja, é fácil considerar que boa parte desse dinheiro vai para os sem caráter.



A primeira conclusão é que o desejo por Poder pode ser o sentimento mais destrutivo do homem. Ali, naquela terra de pessoas extremamente amorosas, a guerra civil deixou consequências desumanas. Quase três décadas de desrespeito aos direitos humanos, tirando vidas como se fosse comer um pão e machucando a alma e o corpo de pessoas pela eternidade. O que me provoca um sentimento incontrolável de tristeza é pensar que esses intermináveis atos inconsequentes eram pelo Poder de mandar, de ser dono em um determinado espaço de terra neste planeta e de realizar a sua ambição.


Com essa voadora dada, seria importante deixar claro que isso não se trata de um julgamento pessoal a esse povo que lutou por seus direitos e pelas suas pessoas. Mas apenas àquelas pessoas, que em algum momento acharam que fazia sentido usar armas, tanques e bombas como uma forma de negociação mais direta para resolver desentendimentos…

Respiremos.


Como um sinal do universo para não perder a esperança, a primeira experiência que tivemos lá foi impressionantemente positiva. Ao chegarmos à cidade de Lubango, a caminho de Luanda, o anjo Paulo apareceu. Um homem angolano extremamente gentil e generoso. Ao pedirmos ajuda, ele nos guiou por trinta minutos pela cidade e se prontificou a levar-nos até a rodoviária. Se não bastasse, ele nos conseguiu duas passagens em um ônibus que estava lotado. E se realmente não bastasse, ao me atrapalhar em pegar o dinheiro para pagar, ele tirou vinte dólares do bolso para completar o valor e não aceitou que pagássemos de volta. Pronto, pensei: tenho que ligar pro vaticano, ramal da canonização.


Em momentos como esse, acredito que pessoas abençoadas são colocadas no nosso caminho para nos fortalecer. Na minha busca por desmistificar essas aparições, após agradecê-lo vinte vezes pedimos seu email para apenas termos o contato e retribuirmos um dia no Brasil. Enviamos uma mensagem no dia seguinte e o email não existe… Cada louco com sua loucura, não é? Conclusão: conhecemos o anjo Paulo de Angola.


A seguinte etapa para sentir a cultura local foi tão divertida que chorarmos de rir e lembrarmos muito da nossa terra maravilhosa – viva a colonização portuguesa! – Ai vai, nossa experiência em um ônibus em poucas palavras:

1. A partida atrasou uma hora em razão de cinco “barracos” entre pessoas disputando lugares a ponto de um chamar o outro para as quadras, o que quer dizer “vamos lutar boxe na rua para resolver?”;

2. Um dos passageiros era uma galinha viva, silenciosa ao menos;

3. Um Jhonas escutava musica alta no celular enquanto cantava, bem;

4. Outro Jhonas levou um isopor cheio de cidra que bloqueava totalmente o corredor;

5. Tivemos que assistir a três filmes ironicamente engraçados (de tão ruins) porque o volume era alto, bem alto;

6. Passamos tanto frio, porque o Jhonas piloto não se importava em escutar os gritos de reclamação, que tivemos que ligar o computador para a bateria nos aquecer… Que aventura!


Em verdade o percurso de 1.200 km nos revelou outro fator bastante lamentável. A pobreza esta distribuída por todos os lugares. Todas as vezes que olhávamos pela janela víamos vilarejos visivelmente carentes, sem saneamento e eletricidade. Lixo é uma calamidade pública mesmo nas áreas mais nobres da cidade, o que é uma clara consequência da falta de consciência e de educação social básica. Muito mais do que pela poluição visual, é muito triste pelas diversas doenças que gera, enchentes e destruição, que afetam sempre os menos favorecidos.



Em qualquer metrópole o contraste entre os mais e os muito menos abastados é constante, mas acredite, nunca vi mais descarado do que em Luanda. Em primeiro lugar existem barracos, casas inacabadas e prédios em construção em todos os quarteirões. Independentemente da região que estávamos, ao olhar para qualquer lado víamos uma casa sem condições básicas para se viver.


Como consequência do desemprego, existem mercados de rua e vendedores ambulantes de qualquer tipo de produto em todos os lugares. As que chamam mais a atenção são as jovens mães com os filhos amarrados nas costas e sua mercadoria equilibrada sobre a cabeça com a maior naturalidade. Todos são geralmente muito simpáticos e nos aproximávamos com o nosso constante “bom dia, tudo bem?” para tirar a impressão de que somos estrangeiros distantes e inclusive falamos a língua local.


Eu, particularmente, tenho um apego problemático à ostentação ridícula e demonstração de status. Sempre acreditei que as indústrias de filmes, novelas e comerciais que cultivam aquele famoso desejo do desnecessário fossem as maiores vilãs para o nosso desentendimento de “ter ou não ter”, mas parece que a guerra pode ser pior. Uma característica bastante peculiar de Luanda é que nas ruas há muitos carros do modelo “é tão caro que vendo até a mãe para conseguir pagar”. Muito mais que em São Paulo que já tem uma grande concentração deles.


O ponto aqui não é o gosto do público do mercado automobilístico, mas a charada é que 90% desses veículos eram pomposamente pilotados por fardas militares. Ou seja, é o maior atestado oficial à corrupção e ao “não me importo com o povo”… Não resisti em perguntar de qual valor estaríamos falando para comprar um desses brinquedos lá e ouvi que seria a partir de US$700mil. Ainda bem que eu não estava armado nesse momento, pois recomeçaria a guerra de novo ali mesmo… Conclui que o que a guerra mais destruiu foram os princípios e valores das pessoas.


Outra prova dessa ostentação descabida, na contramão da grave desigualdade social, é que a cidade já foi eleita a mais cara do mundo para se viver e ganhou em 2014 de novo (uhu!), segundo a consultoria Mercer. Mesmo procurando os lugares mais baratos, os preços que vimos foram absurdos. É compreensível ao pensarmos que não existe um mercado desenvolvido para todos os bolsos em razão de sua economia muito jovem, com o país livre de guerras somente há doze anos. E naturalmente porque a indústria de propina para impostos deve estar a todo vapor ainda!

Respiremos mais fundo.


Em uma das nossas conversas com as pessoas nas ruas, falamos com um candongueiro – nome dado aos transportes coletivos locais que cobram um dólar por qualquer trajeto. – Depois de muito aprender um do outro, chegamos à parada final. Ao descer, percebemos que tínhamos nos esquecido de pagar e, de repente, o motorista falou “essa fica por nós”. Fecharam a porta e foram embora. Gabi e eu ficamos chocados de novo com a generosa gentileza e quase desacreditamos no que vimos num país onde existiu tanto sofrimento. Alegria!



Mais incrível é que tivemos outra experiência de generosidade em um mercado de rua. Procurando sabão para lavar roupas encontramos um carrinho de mão com muitas pedras de sabão brancas. A simpática jovem vendia quatro por um dólar. Como não queríamos levar tantos, pedimos para ela cobrar um dólar e levaríamos somente uma pedra. Ela inicialmente confusa, ao entender que queríamos apenas uma, não pestanejou e nos disse “ah, apenas uma podem levar, é presente meu.” Assim, vindo de uma jovem que luta para sobreviver com dificuldades que sequer conseguimos imaginar. Ainda estou me perguntando, como um gesto tão simples pode ter tanto significado para o que o mundo precisa?


Na nossa continua busca pelas partes da cidade com mais gente simples e do bem, fomos ao Mercado 30. Um mercadão de rua gigantesco onde se vende de tudo, como comida, roupa, peça de carro, eletrodoméstico e CD. Não descobrimos o número oficial mas arrisco afirmar, tranquilamente, que havia mais de dez mil pessoas ali. Ele fica distante do centro, demoramos uma hora para chegar depois de três candongueiros. Sendo os únicos brancos no local, notamos de cara que me viam como um avatar albino e a Gabi como uma escandinava. Mas não nos sentimos em perigo em nenhum momento. Depois de muitas caminhadas empolgados trocando muitos olhares e palavras, paramos para conversar com a simpática e sorridente Maria Pedro. Ela nasceu em outra cidade, Malanje, mas mora no bairro de Viana, em Luanda desde 1981.



Ela teve sete filhos, mas hoje apenas quatro estão vivos. Talvez pela guerra ou por doenças, ela não quis falar muito disso e respeitamos, claro. Ter muitos filhos é comum, sob a justificativa de que no futuro ajudarão no sustento da família. Por hora essa é uma das crenças populares mais preocupantes que conhecemos, mas pretendo tratar desse assunto separadamente em outro momento.


Como em situações parecidas em que estivemos desde o início, nos impressiona que apesar de todas as dificuldades ela era espontânea e visivelmente alegre, gargalhava de tudo e fazia piadas. Pode ser apenas um traço de personalidade, mas ainda nos faz refletir que ali, no foco da pobreza do mundo a melancolia e a tristeza são sintomas pouco comuns… À medida que conversávamos percebemos que os problemas básicos que têm são a falta de eletricidade e água. Dentro do tema dinheiro o que mais a preocupa é a educação e ter sempre condições para pagar a escola dos filhos. Naturalmente na situação do país o ensino público não funciona para todos.


Quando falamos sobre isso ela se soltou e nos inspirou muito. Sendo a corrupção e o egoísmo os fatores mais prejudiciais à potencial igualdade social, ela nos disse de uma forma muito natural que o que falta em Angola e no mundo para resolvermos isso é só amor. Pode parecer uma conclusão infantil demais, mas lá para matricular o filho numa escola pública, muito além de filas e falta de vagas, o que define é a propina na hora da matrícula. Mas espera! A pessoa que representa o governo exige dinheiro de pessoas que não tem, apenas para exercer a sua função elementar de educar os líderes do futuro? Sim e muito infelizmente sabemos que isso não acontece só ali.


A sutileza está na forma emocionada como ela nos disse “o que falta é o amor” e isso tem uma verdade muito essencial. E ela continuou falando de muitas outras situações complicadas da vida, em que esse sentimento poderia ser a solução. Foi uma gentil cutucada a todos que usam sempre “te amo”, olham só para o próprio umbigo e tentam tirar vantagem de tudo. Falta muito amor para quem mais precisa dele para sobreviver e devemos repensar esse conceito. O que é amor para você?



Obrigado a todos que contribuíram para essas experiências e inspirações. Divirta-se!


Felipe.