Reflexão #1 - Somos todos iguais, lembra?



Oi gente !! Como estão?


Por aqui – agora em Angola – tudo corre super bem.

Antes de mais nada, gostaria de agradecer por terem acolhido nossa ideia com tanto carinho! Tenho visto alguns shares no facebook e recebido mensagens muito especiais. Obrigada! Desde o início, a nossa intenção era justamente essa! Ter todos vocês viajando com a gente e despertando para discussões e reflexões sérias, que são determinantes para mudar o curso da sociedade em que vivemos.


Estamos aprendendo muito. Na verdade, acho que estou começando a aprender sobre a vida agora… Além de aprender a editar vídeos e secar roupa na janela.


Por conta disso, Fe e eu chegamos à conclusão de que só compartilhar com vocês o registro das Experiências poderia ser muito pouco. Foi quando decidimos compartilhar também nossas reflexões, inquietações, nossos questionamentos e tudo aquilo que nos dá a certeza de que fizemos a escolha certa. E cá estou eu.


Desde a nossa chegada já passamos por quatro países diferentes – África do Sul, Botsuana e Namíbia. Agora estamos em Angola. Atravessamos fronteiras caminhando tranquilamente…o que pra mim foi outra surpresa, porque sempre imaginei que pudesse ter que desviar de crocodilos e dormir na floresta. Tá aí a influência das novelas…hehe


Vivemos experiências incríveis em cada lugar, mas nada tão valioso como ter a oportunidade de enxergar e compreender a história dos povos, do homem e do mundo.


Digo isso, porque nesses dias tivemos a chance de sentir na pele os contrastes que tanto buscávamos. E acreditem, viver isso esclarece MUITAS coisas.


Uma delas é o Apartheid. Porque as minhas aulas de história na escola não dedicaram um ano todo para falar disso? Porque não me lembro de ter abordado essa questão na faculdade de Direito e porque ninguém gritou no meu ouvido os detalhes de como isso aconteceu?

Ainda não me conformo com a ideia de que alguns homens se acham no direito de “descobrir” uma terra nova e simplesmente tomá-la para si. Desconsiderando o povo que ali vivia, a cultura e a história que ali construíam.


Se não bastasse decretarem, unilateralmente, uma nova ordem moral, social e religiosa, eles ainda se achavam tão superiores a ponto de te impedir de frequentar os mesmos lugares que eles. E para não parecerem tão cruéis assim quando te expulsaram da sua casa, eles construíram uma outra cidade – Township – todinha para você e para os seus amigos. Longe do centro, claro… onde a sua presença não era muito bem vinda.


Você e seus amigos não podiam usar o mesmo banheiro que eles, nem frequentar os mesmos bares. Nem dava pra esquecer disso, pois haviam placas espalhadas por todos os lados.

Ah, esqueci de dizer:

Você e seus amigos são negros. Eles são brancos.

E ?!?!?

Pois é… Não sei quem foi a infeliz criatura que, de tão vazia, criou a ideia de segregação para se auto atribuir algum valor. Só sei que foi mais de uma…. Já que a historia do mundo nos mostra que isso aconteceu – e ainda acontece – com certa frequência em vários lugares. Negros, judeus, ciganos, indígenas, homossexuais…a lista é grande. É quase como se a gente tivesse que dar sorte na hora de nascer, pra evitar dificuldades e retaliações que nem sempre a gente entende direito de onde surgiram.


Nós também vivemos isso no Brasil. Uma segregação que hoje aparece mais velada, e só percebem aqueles que resolvem sair do sofá e buscar mais respostas do que aquelas que passam na TV. Aproveitando as longas viagens de ônibus, Fe e eu assistimos um breve documentário sobre a história do nosso país. Se chama Brasil: Uma História Inconveniente.

Nesse momento de tantas identificações e diferenças, foi fundamental relembrar o nosso passado. Somos o MAIOR país escravista do mundo. Durante a colonização, foram importados mais de 4 milhões de escravos da África. Sim, importados. Pois eram tratados – e transportados – como mercadoria e não como gente. Só não houve segregação territorial de raças – como o Apartheid – porque o Brasil precisava ser rapidamente povoado e, para isso, os colonizadores se deitavam com indígenas e escravas, gerando filhos que quase nunca eram reconhecidos como legítimos. Por isso somos tão misturados.


Há quem diga que a cultura africana chega a ser mais forte e latente no Brasil do que na própria África, em que o processo de colonização simplesmente engoliu a história e os costumes de quem, antes, costumava ser dono de tudo. Ainda assim, parece que esse passado ainda é pouco relembrado quando vamos discutir problemas sociais.


Que o nosso país já nasceu africano, acho que todo mundo tem noção. Mas será que todos sabemos como essa história foi construída e como a nossa origem, essencialmente negra e escravista, foi determinante para a sociedade que vivemos hoje?


E essa pergunta eu faço especialmente para aqueles que não se questionam e aceitam qualquer coisa como verdade. Para aqueles que, às vezes, assim sem querer, esquecem que são tão brasileiros, tão africanos, tão seres humanos quanto quaisquer outros e, portanto, fazem parte do todo e são co-responsáveis pelo curso das águas. E isso implica trabalhar para que todos tenham oportunidades de escolha e a pobreza e desigualdade não sejam uma imposição inevitável como são hoje.



E nesse sentido, divido com vocês o trecho do livro Reflexões sobre a Tolerância, de Rao V. B. J. Chelikani, em que o autor defende que “Todo ser humano tem o dever de questionar as situações que comportam injustiça fundamental para si próprio ou para outrem e esforçar-se para corrigi-las. Evitar o confronto e o conflito, em tais situações, remete, não à tolerância, mas à cumplicidade.


Eu que não quero ser cúmplice disso, Se quisesse, talvez eu não estivesse passando calor em Angola e sem tomar o café com leite da minha mãe, somente para buscar respostas que me ajudem a melhorar o MEU país.


Mas eu estou. E daqui eu vejo que somos todos capazes de um efeito dominó. Cada ação e cada palavra podem ser os pontos de partida para grandes movimentos. Compartilhar nossas crenças e convidar mais gente a se descobrir como parte de um todo. Do mesmo todo. Afinal, somos todos iguais. Só muda o endereço.


Gabi.