Reflexão #16 - Não fechem a minha janela



Quando a gente sonha com algo, sempre parece muito distante o dia em que poderemos realizá-lo. O dia depois da realização, então… nem se fale.


Talvez tenha sido por isso que eu ainda tenho a sensação de que esse último ano foi um grande sonho, do qual eu acordei meio no susto, ao chegar no aeroporto com pessoas amadas nos esperando, gritando e vestidas com a camiseta do Think Twice Brasil (que eles mesmos prepararam hehe).


De qual país você mais gostou? Qual foi o maior perrengue? O momento mais tenso? O mais emocionante? O que vão fazer agora? Vão continuar no Brasil?


Essas foram as perguntas mais comuns e que eu confesso ter respondido cada hora de um jeito. Inclusive, tenho a leve impressão de que será assim pra sempre… as lembranças vão surgindo e quando me veem à cabeça, dependendo do contexto e da situação, me trazem novas perspectivas e reflexões.


A primeira noite de volta foi curiosa. Voltei pra casa da minha mãe e o Fe seguiu com os pais dele. Dormi esticada na minha cama de lençóis branquinhos e cheirosos, tomei banho no meu banheiro, que antes eu achava apertado demais pra mim e agora parecia uma extravagância de conforto. Coloquei um pijama limpo e tirei uns minutinhos pra bater um papo com o pessoal que fica no meu oratório. São Francisco, Nossa Senhora, Iemanjá, Buda, Krishina, Ganesh, Sagrado Coração de Jesus e até a Cinderela que ganhou um upgrade por engano (graças à mania de organização da minha mãe).


Agradeci, agradeci, agradeci… mas com a sensação esquisita de que tinha sido tudo tão rápido, que me deixou em dúvida se tinha mesmo acontecido. Afinal, por aqui nada mudou, a não ser pela canonização da Cinderela.



Os dias foram seguindo e os reencontros também. Gente querida que me fez lembrar um dos motivos do porque o Brasil é o meu lugar.

Mas eu não esperava que mesmo com todo esse amor que me foi entregue, eu teria tantas dificuldades de reconhecer esse meu lugar. Observar que nada mudou é um conforto, mas também uma frustração. Me lembrei de que no post que contei a primeira vez sobre o Empathy Experience, eu escrevi que deixava “tudo guardado em um potinho. Aqueles potinhos de vidro, cheios de lembranças pra gente ficar olhando com carinho e abrir a tampa quando sente saudade.”


Potinho

Só não imaginava que o que eu mais queria era poder ter levado esse potinho, com a tampa aberta, pra permitir que as pessoas que deixei dentro dele vivessem tudo aquilo comigo. Dar a elas a chance de sentir na pele e enxergar com o coração o tanto de lições que aprendi com quem sequer sabe ler ou escrever.


Queria tanto que elas pudessem entender porque eu agora fecho os olhos e agradeço por cada refeição, porque não consigo gastar o resto que sobrou do meu dinheiro em qualquer cafézinho que custe pelo menos R$50,00, nem de passar despercebida pelas famílias novas que estão morando nas ruas perto do Ceasa.


Queria tanto que elas pudessem compreender que dá pra ser mais positivo, mesmo que tudo indique que o dólar pode chegar a R$10,00. Queria conseguir falar mais sobre meditação, sobre compaixão, sobre generosidade e gratidão.


Mas principalmente, queria poder ser mais paciente e humilde com essas pessoas que eu tanto amo. Queria ter a sabedoria necessária pra comprovar que, pelos meus cálculos, o mundo tem muito mais gente do bem, fazendo um trabalho duro que é remunerado mais com amor, do que com dinheiro e ainda assim eles não desistem.


Queria simplesmente poder demonstrar que se decidirmos mudar alguns pequenos hábitos, o Universo parece reconhecer nossa intenção e consegue nos ajudar a seguir nesse caminho de mudança.


Uma sugestão? Tente ficar um dia sem se queixar, sem julgar o próximo, nem falar mal de ninguém. Tente focar no lado bom das coisas e enxergar o melhor das pessoas, por mais difícil que pareça. Pratique a empatia com tudo e com todos. Ao final do dia, reflita sobre as sensações e sentimentos (e se quiser compartilhar, me escreva contando hehe).


Como o Fe contou na Reflexão #15, parece que uma boa parte do mundo está tentando nos desencorajar.


Não tem como não perder a fé na humanidade assistindo programas da tarde e jornalismo policial. Navegar por algum grande portal da internet também chega a dar palpitação. As informações variam de quem beijou quem no Rock in Rio, alta do dólar, Lava Jato e até arrastões na zona sul do Rio. Nesse meio tempo, pode rolar uma boa dose de sensacionalismo, opiniões parciais dos apresentadores e jornalistas, discursos preconceituosos e debates superficiais.


Inclusive, se você que está lendo é um jornalista/comunicador, eu vos suplico: Mostrem o lado bom do Brasil, das pessoas, do mundo. Vocês, e todos os outros milhares de profissionais da área, têm o poder sublime de nos influenciar, nos inspirar, nos tocar e nos mobilizar. Sem contar o poder de colocar no papel a sua impressão sobre o que lhes foi dito ou presenciado. Tentem fazer isso pelo bem. Tentem ouvir mais do que falar – ou escrever. Tentem praticar a empatia e prestar um serviço à sociedade, ao invés de contribuir para aumentar a descrença na vida humana na Terra.


Eu conheço profissionais muito especiais, que inclusive contaram a história do Think Twice Brasil com muita verdade. A vocês, o meu desejo de que voem ainda mais alto e consigam tocar cada vez mais pessoas com o otimismo e os valores firmes que carregam.


Porque histórias de superação, de generosidade, de esperança não dão ibope? Essas histórias existem ao montes e posso lhes assegurar que são muito mais numerosas do que essa enxurrada de desgraças com as quais somos amedrontados a cada instante. Vamos mudar de perspectiva ?


Em um dos desabafos chorosos que tive com minha mãe nessa última semana, eu pedi perdão por ter me tornado um peixe fora d’água. Pedi também que ela pare de assistir aos programas da tarde hehehe. Pedi perdão porque conclui que na minha ânsia de mudar o mundo, eu, pacientemente, devo conseguir mostrar às pessoas à minha volta o porque de eu precisar tanto delas. Não estou falando de dinheiro, de tempo, de doação, de voluntariado. Estou falando de disposição para mudar de vida e isso acontece única e exclusivamente através da vontade de se transformar em alguém melhor pra si e pro próximo.


Ainda nessa conversa, na tentativa de explicar à minha mãe toda a minha angústia desses últimos dias, eu contei a ela como eu me sentia: Mãe, antes eu vivia em um quarto alto e completamente escuro, tateando tudo ao meu redor e também a mim mesma, na tentativa de reconhecer quem eu era e aonde eu estava. De repente, depois de muito tatear, eu encontrei uma janela e com bastante dificuldade eu consegui abri-la. Com a janela aberta e a luz do sol clareando tudo, agora eu enxergava a mim mesma, o quarto e tudo o que os meus olhos alcançavam lá de cima. Confesso que essa luz, muito mais do que sentida com os olhos, é vivida com o meu coração.


Um caminho sem volta, mas que me remete à importância de cuidarmos dia após dia dos nossos valores e princípios, sermos humildes para reconhecer até onde podemos ir e corajosos para fazer diferente mesmo que o resto do mundo torça o nariz. Um janela aberta para enxergar o mundo com as suas dificuldades, mas também com as suas maravilhas e, na medida do possível, trabalhar para que essas maravilhas ganhem mais evidência do que as dificuldades. Uma verdadeira inversão de valores e uma mudança de paradigma que nos façam resignificar nossa existência e a do outro.


Enfim, é a minha chance de, pela primeira vez, seguir firme nos meus ideais e na minha vontade incondicional de fazer da minha história algo que transforme a história de muita gente.

  • É tempo de seguir firme acreditando,

  • trabalhando,

  • compartilhando

  • e agradecendo.

É tempo de resistir a um mundo de desesperanças, de preconceitos, de segregação e desvalor.

É tempo de reconhecer que a parte boa da vida quase nunca ganha destaque na TV, a menos que a gente decida enxergar esse lado.


E eu, agora daqui de casa, continuo me descobrindo a cada dia e pedindo a toda a minha tropa de proteção, incluindo a Cinderela, que continue por perto mantendo essa luz no meu caminho. E antes que alguém duvide do que virá pela frente, eu já adianto: Não, não irão fechar a minha janela.


Gabi.