Economia de oportunidade ou oportunismo?



Um assunto que tenho grande paixão é entender os problemas e pensar em soluções para o modelo socioeconômico em que vivemos. Muitos se assustam só com a palavra economia, mas insisto em acreditar que essa é apenas a forma que criamos para regrar nossos relacionamentos, a qual se tornou condicionada ao dinheiro. Isso já justifica a quantidade de problemas que temos, pois esse modelo une:

  1. as complicadas relações humanas: por sermos todos diferentes;

  2. os maiores venenos da mente: o ego e o poder; e

  3. nossa maior causa de sofrimento: o medo do futuro.

Dentro desse conceito, uma palavra chave que todos passaram a desejar para viver melhor, ou pelo menos em mais vantagem que os outros, é Oportunidade. Na maioria das vezes ela está relacionada com um possível emprego que apareceu, uma ideia de negócio nova, uma promoção pra comprar algo ou aquela promessa que já vem explícita em “uma oportunidade pra mudar de vida”. Aí, o fator dinheiro é o que a dita. A palavra Oportunidade é linda, transmite uma situação favorável, uma chance boa para alguém e que todos que a encontram pela vida se dão bem. Porém, é interessante lembrar que essa palavra vem acompanhada do seu melhor amigo, o Oportunismo, que na verdade, tem um significado bem diferente e achei um ótimo no dicionário para defini-lo: tendência a sacrificar os princípios.


Realisticamente falando, é exatamente esse significado que nós, em nosso contexto socioeconômico, passamos a levar ao pé da letra no nosso convívio e na relação que temos com o nosso dinheiro e com o dos outros. Isso não quer dizer que toda oportunidade que encontramos é contra a humanidade, tampouco contra os nossos princípios, mas o Oportunismo tomou mais importância que muitos valores com o passar do tempo, colocando-os em risco de perder sua prioridade. Quero explicar como.


No início da sociedade, acredito que essa ideia de oportunidade, na esfera de negócios, nasceu pela boa fé de uma pessoa para ter uma renda e melhorar a vida das pessoas ao seu redor, como fazer um produto para higiene que ninguém tinha, tornar a água potável mais acessível, produzir diferentes comidas para alimentar melhor, desenvolver medicamentos para a saúde e assim por diante. Em outras palavras, a oportunidade surgia da necessidade, o que é admirável e uma prova da nossa evolução. Porém, num determinado momento, algum gênio teve a ideia de pensar, de outra forma, nessas necessidades que ainda não tinham sido atendidas. O detalhe é que nesse caso ele se esqueceu, intencionalmente ou não, de manter na estratégia que seria importante saber se aquela “nova necessidade” seria realmente necessária para os outros.


Claro que esse questionamento é relativo a cada sociedade, estilo de vida e momento, mas como somos uma raça bem inteligente conseguiríamos facilmente fazer essa distinção, se quiséssemos. O problema foi que a partir de então essas ideias que não tinham uma missão genuína e necessária de melhorar a vida, criaram uma nova forma de oportunidade-oportunista, na qual a relação de troca perdeu seu sentido de ser bom para ambos os lados e deu início a outras consequências. Como, por exemplo, o desperdício de recursos naturais que não precisariam ser utilizados, o consumo absolutamente desnecessário e um conflito de necessidades para a mente.


Assim a oportunidade se tornou, em muitos casos, nada mais que o oportunismo de encontrar formas para que alguém queira trocar seu dinheiro por algo que alguém criou. Isso se tornou tão profundo que hoje o grande sinônimo de sucesso é ter ideias inovadoras, que ninguém teve, independentemente de serem justas, corretas, de fazerem o bem e de medirem suas consequências. Calma que isso não significa que todos os empresários, empreendedores e inventores são pessoas mal intencionadas, não é isso. Porém, como consequência, a maior parte das ferramentas de desenvolvimento econômico dos últimos séculos tem sua matriz motivacional baseada no oportunismo de encontrar soluções para ganhar dinheiro. Lucro e ponto, o resto é detalhe…



Reitero que isso não é um julgamento pra dizer que todos os empresários são inconsequentes e movidos pelo dinheiro, mas que boa parte do foco do nosso pensamento e da criatividade se virou para essa visão de ganhar mais e não necessariamente de suprir uma necessidade de alguém. Obviamente sempre existirão nossas necessidades básicas que precisam ser supridas, como tomar água e se limpar com um sabonete, mas hoje até isso se tornou complexo porque não dá pra saber a motivação e idoneidade da empresa vendedora na hora de decidir a compra. Uma prova disso é que hoje estamos numa batalha civil para lembrar a todos, principalmente as empresas, que existe o conceito de responsabilidade social e ambiental, os quais se perderam totalmente no tempo, exatamente em razão do mesmo fator: o foco é o lucro e ponto.


Em momentos como esse a consciência começou a se perder. Você já deve estar pensando em muitos exemplos para ver se essa explicação faz sentido. Por favor, para ver do seu lado como consumidor reflita se você não sabe de algum produto que já comprou motivado por “não sei o que” que você usou só a primeira vez ou nem mesmo usou? Pior ainda, quantos presentes você já deu ou ganhou em que a necessidade do presenteado foi presumida sem certeza alguma? Eu já fiz isso incontáveis vezes… Se um produto comprado foi verdadeiramente necessário, somente o usuário pode dizer, mas hoje as pessoas não têm tempo nem pra se perguntar isso antes de se desfazer de algum dinheiro. Apenas não saber essa resposta torna isso uma futilidade.


Especialmente porque esse simples hábito de “querer comprar sem saber porque” pode se tornar uma mania, um vício e uma vontade inexplicavelmente profunda nas pessoas. Pra quem não tem dinheiro isso pode ser um problema ainda mais sério. Outro dia vi o caso de uma mãe de família que mora de aluguel numa casa muito simples, sem nem janela. Por motivos sociais, ela decidiu começar a pagar prestações do silicone que quer colocar nos seios. Esse exemplo explica quão profundo e malfeitores esses anseios podem ser?


Eu tenho inúmeras lembranças de momentos em que comprei coisas que nunca usei, mas não nos martirizemos por isso, precisamos passar a refletir antes de consumir.


É muito difícil concordar com esses hábitos que criamos, porque parecemos egoístas ao criar produtos/serviços e burros ao comprá-los, mas não acho que seja essa a conclusão. Esse ritmo foi responsável por todo esse desenvolvimento tecnológico impressionante que chegamos hoje, sem dúvida, o que efetivamente melhora a vida de tanta gente. Eu, por exemplo, ainda me assusto, às vezes, ao pensar que com um pequeno objeto (o celular) é possível conversar com outra pessoa em qualquer lugar no mundo. Somos gênios, mas chegamos a um ponto que esquecemos as consequências e elas nos colocam em sério risco.


É um grave individualismo, porque aquele mesmo medo que temos do futuro é muito pessoal e em curto prazo. A maioria planeja a vida pros próximos anos e nem para pra pensar as consequências de suas decisões para o próximo século. Quantas empresas hoje trabalham num ritmo que a preocupação é vender o objetivo do mês e alcançar o lucro do ano, custe o que custar? Você acha que nesse clima existe algum espaço pra pensar em consumo consciente, sustentabilidade e responsabilidade social?


Aqui entra a parte mais complexa dessa discussão, porque alguém já pode alegar que seria insano pensar que se o metal vai acabar não podemos mais produzir carros ou se o plástico é tóxico não podemos fazer brinquedos, etc. Mas a ideia não é essa. Eu contra argumento perguntando porque tem gente que troca de carro a cada dois anos? Porque tem criança que tem tanto brinquedo que nem dá tempo de usar? Porque tem adultos comprando roupa todo mês?


Muitos documentários ilustram isso com perfeição. Recomendo cinco deles que valem muito a pena ver de graça na internet. Confesso que assisti-los pode dar um pouco de desespero, mas temos que aceitar essa realidade e mudar, principalmente porque continuar vivendo esse conto de fadas apenas fará com que as nossas próximas gerações sofram as consequências.

Obsolescência Programada – conta como empresas fabricam produtos pra dar problema, de propósito, depois de certo tempo pra que comprem de novo. – Quem Matou o Carro Elétrico – fala sobre como o lobby da indústria do petróleo obrigou montadoras a tirar os carros elétricos das ruas, há duas décadas. – A Era da Estupidez – mostra até onde a indústria de combustíveis fosseis e o desperdício podem nos levar. – História das Coisas – explica como os recursos são usados e desperdiçados. – Pegada Humana – esclarece os efeitos de como consumimos hoje e como a terra pode se tornar.


Bom, quem tem culpa nisso tudo? Claro que todos os responsáveis. Quem inventa, vende, compra, divulga, recomenda, distribui, entrega e usa. Qualquer empregado ou consumidor. Mas ai a capacidade humana de se eximir de culpa entra muito forte. Uma palavra que facilita essas desculpinhas é “empresa”, a qual tem que assumir a responsabilidade de qualquer empregado como se ela trabalhasse sozinha e que a culpa fosse da missão e da cultura que foram lapidadas ao longo do tempo. Fácil tirar o corpo fora assim.


Independentemente de encontrar os culpados e julgá-los, a simples mudança que precisamos são pessoas conscientes da sua responsabilidade social, ambiental, animal, humana, sobre-humana e interplanetária. Pra tanto um exercício é muito fácil, se pergunte: Está certo? Faz bem? Respeita?


Como ter dinheiro para sobreviver se tornou a prioridade, o trabalho passou a comandar a nossa vida. Se tratando de um sistema competitivo e não exatamente justo, nos tornamos fiéis ao nosso trabalho para ter uma renda garantida, estabilidade e minimizar o medo de não ter dinheiro no futuro. O que faz sentido, o problema é que aqui voltamos ao Oportunismo, porque essa fidelidade se tornou tão profunda que nossos princípios foram sacrificados e deixados de lado. Pode ser sem intenção, mas ainda falta responsabilidade de assumir e reconhecer quando for parte de uma empresa irresponsável e inconsequente, por exemplo. Prefiro não citar nomes pra não causar uma revolução popular… E ai, quem tem culpa? Pense você mesmo, quantas pessoas você conhece que acham que precisam trabalhar sem nem saber porque o fazem?



O ponto pra mim é ser justo, só isso. Um grande exemplo disso são os bancos e as taxas que só aumentam, enquanto tem mais gente endividada sem conseguir dormir e mais pessoas que “doam” quantias exorbitantes de juros para as instituições para ter uma casa própria e pagar os eletrodomésticos em parcelas. Ao mesmo tempo, os quatro maiores bancos brasileiros publicam um lucro líquido de mais de R$48 bilhões em 2014 (fonte: Folha de S.Paulo). E ai, está certo? Não choremos.


Você acredita que para mudar a realidade de hoje, contribui mais para o mundo inventar e vender produtos cada vez melhores e mais caros para quem tem dinheiro ou criar produtos de qualidade a um custo acessível para que milhares de novos consumidores menos poderosos possam comprar? Como dinheiro ainda é a moeda de troca universal isso não impede que ambos os modelos tenham seu devido lucro, mas ter um objetivo responsável que se preocupa com todos é mais correto.


Esses exemplos são intermináveis e como já contei algumas vezes o conceito de Negócios Sociais é a maior prova que o novo caminho consciente é possível. Uma explicação muito simples desse modelo é que são negócios lucrativos, como outro qualquer, porém seu foco prioritário é um serviço/produto que visa necessidades sociais ainda não atendidas. Hoje, em razão de como a sociedade se desenvolveu, essas oportunidades são concentradas nas classes sociais de menor poder aquisitivo. É como uma inversão de prioridades: primeiro vem realizar a sua missão, depois o lucro. Já existem inúmeras matérias e casos de muito sucesso a respeito, basta procurar na internet.


É, esse assunto é pauta pra livro, mas quis compartilhar esses pensamentos porque a mudança é viável e à medida que mais gente conseguir enxergá-la, ela vai acelerar. Tomara que ela ultrapasse o ritmo do oportunismo em tempo, se não só o próximo planeta nos salvará!


Divirta-se!

Felipe Brescancini Think Twice Brasil